Agricultura e construção civil terão crédito de R$ 6,5 bilhões

São Paulo O ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, anteciparam ontem novas medidas para irrigar o mercado de crédito brasileiro. As ações, que envolvem cifras da ordem de R$ 6,5 bilhões, vão beneficiar especialmente os setores da agricultura e construção civil, mas também visam a garantir maior acesso de empresas e consumidores ao dinheiro.
As medidas foram alinhavadas em reunião convocada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ontem, no escritório da presidência da República, em São Paulo.
Ao lado de Meirelles, Mantega explicou que o governo deverá ampliar o crédito para a agricultura em cerca de R$ 2,5 bilhões. Os recursos serão originados a partir do aumento da parcela da poupança rural que será direcionada à agricultura, de 65% para 75%.
Segundo o ministro, a medida poderá ser anunciada hoje pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Ele observou, porém, que o CMN precisa primeiro criar uma resolução e depois aprová-la.
O ministro lembrou que, nas duas últimas semanas, o Banco do Brasil já liberou cerca de R$ 10 bilhões ao setor de agronegócio. “Portanto, não me parece que haja razão para haver uma redução da safra 2008/2009. É claro que poderá haver algum fator climático ou alguma deficiência de crédito que ainda não identificamos”, ponderou ele.
Outro setor que deve receber tratamento especial é a construção civil. Nos últimos anos, as empresas se capitalizaram por meio de lançamento de ações na Bolsa de Valores, estabeleceram planos de investimento de longo prazo e gastaram o dinheiro na compra de terrenos, disse Mantega. Agora não conseguem capital de giro para tocar os projetos.
“Estamos montando um sistema para dispor esse crédito, que deve somar entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões para completar as obras”, disse Mantega.
Participação
Ele destacou que esse crédito poderá ser feito via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES), que já apresentou proposta para o setor, ou Caixa, por meio de participação acionária nas empresas.
“Uma das duas medidas será tomada nos próximos dias.” Meirelles completou ainda que, durante a reunião, foi feita uma revisão de todas as ações dos bancos estatais até o momento na compra de carteira de outros bancos e na concessão de crédito.
As instituições foram chamadas a se preparar para aumentar sua participação nos empréstimos e financiamento no país, seja para pessoa física, capital de giro para empresas e investimentos.
Fed apóia novo plano para cidadão americano
WASHINGTON O Fed (banco central dos EUA) deu sinal verde ontem a um novo pacote de estímulo direto às famílias e consumidores americanos. A notícia ajudou a impulsionar as Bolsas ontem.
A Casa Branca, que estava reticente em relação ao pacote, agora também diz estar “aberta” para adoção de novas medidas para recuperar a economia. A bancada democrata, majoritária no Congresso, vem defendendo há meses um pacote de estímulo fiscal entre US$ 150 bilhões e US$ 300 bilhões.
Há fortes divergências, porém, entre republicanos e democratas sobre o funcionamento e o alcance dessas medidas. “Com o risco de um desaquecimento acentuado, parece uma medida apropriada o Congresso considerar um pacote fiscal”, disse o presidente do Fed, Ben Bernanke, ao depor na Câmara.
“O ritmo da atividade econômica caminha para ficar abaixo de seu potencial por muitos trimestres”, disse Bernanke.
A porta-voz do presidente George W. Bush, Dana Perino, afirmou que embora a prioridade da Casa Branca seja levar adiante o pacote de socorro aos bancos, ele tem “mente aberta” em relação a um segundo pacote de estímulo fiscal ? que poderia sair ainda neste ano.
Bolsa sobe, mas temor de recessão ainda resiste
São Paulo Novos reforços na ajuda ao sistema financeiro na Europa e na Ásia deram fôlego para que as Bolsas de Valores iniciassem a semana em alta, embora a valorização do dólar no Brasil e no exterior indique que o mercado ainda teme os desdobramentos da crise em todo o mundo.
O Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) fechou em alta de 8,36%, aos 39.441,08 pontos, sem ter experimentado queda durante todo o dia, chegando a máxima de 8,39%.
Na última hora de pregão ? que a partir de ontem tem início às 11 horas e término às 18 horas em razão do horário de verão ?, a alta ganhou força, amparada na aceleração dos ganhos em Nova York.
Em Wall Street, o índice Dow Jones subiu 4,67%, aos 9.265,43 pontos. O dólar, no entanto, fechou em alta de 0,33%, a R$ 2,12 para venda.
O resultado ocorreu em meio a um volume de negócios reduzido e refletiu certa cautela dos investidores com o megaleilão de até US$ 2 bilhões direcionado a exportadores, que o BC realizou das 16h às 17h, e o avanço externo do dólar em meio a temores de que o pior da crise financeira global ainda esteja por vir.
“Antena ligada”
Lula muda o discurso
“Precisamos ficar de antena ligada, porque a crise pode atingir os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), o G-20 e os países pobres”
Luiz Inácio Lula da Silva
presidente da República
Acontecimentos
Dia foi marcado por um leilão brasileiro e pela ajuda a bancos franceses
Dólares à venda
Dinheiro arrecadado em leilão vai para exportadores
US$ 1,62 bilhão
É quanto foi leiloado ontem pelo Banco Central brasileiro. Trata-se da primeira operação dentro das novas regras que obrigam as instituições a usar o dinheiro para financiar exportadores e importadores.
US$ 2 bilhões
É o volume total ofertado, mas só foram aceitas 4 propostas.
Na França
Mais dinheiro para bancos
O Estado francês vai injetar 10,5 bilhões de euros nos seis principais bancos privados do país até o final do ano, anunciou ontem a ministra Christine Lagarde.
Os beneficiários são:
Crédit Agricole 3 bi de euros
BNP Paribas 2,55 bi
Societé Générale 1,7 bi
Crédit Mutuel 1,2 bi
Caisse d’Epargne 1,1 bi
Populaire 950 milhões
Lagarde disse que esta medida é indispensável para que os bancos possam continuar concedendo créditos
Análise
Diferentes
Eduardo Fonseca
Economista
O mercado imobiliário brasileiro está longe de cair no abismo criado pela crise dos EUA. O setor imobiliário brasileiro está apenas começando o ciclo de expansão do crédito. Não existe bolha e inadimplência de mutuários. As empresas estão, de modo geral, capitalizadas. Aqui, o único perigo é uma parada súbita de capital de giro em projetos em finalização. Mas ela é perfeitamente administrável. Até mesmo com algumas ações de bancos estatais. Não vejo ameaça de crise emergencial. Entre as medidas governamentais possíveis, há a criação de oferta de seguro de crédito imobiliário e a redução do compulsório que incide sobre a caderneta de poupança.
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